Quando minha ansiedade vira um problema

Quando se fala de ansiedade, a primeira coisa que temos que entender é que a ansiedade é algo natural, presente em todos os seres humanos e que tem uma função em nossa vida que não é necessariamente algo ruim.

A ansiedade serve para nos deixar em estado de alerta, aumentando assim nossa capacidade de responder rapidamente a situações de estresse.

Ela funciona realmente como parte do nosso sistema de defesa, como um grande alarme que soa e nos deixa atentos toda vez que percebemos que algo não está certo ou que merece nossa completa atenção.

“Ta, tudo bem Rodrigo, mas eu detesto ficar ansioso” você deve pensar. Mas tente olhar da seguinte forma: você detesta estar ansioso, vai fazer de tudo para terminar logo aquela situação e assim deixar de sentir-se ansioso…bingo, o seu sistema de alarme fez seu papel.

A grande questão é quando seu sistema de alarme ( ansiedade) fica “desregulado”, soando assim em situações que não são necessárias tanto alarde, como por exemplo frente a situações sociais que seu alarme soa insistentemente e te trava no que deveria fazer (fobia social), na frente de determinado animal que seu alarme fica enlouquecido e não te deixa pensar em mais nada ( fobias especificas), em situações corriqueiras e que de repente ele soa tão alto que parece que vai te fazer um terrível mal ( ataque de pânico), ou frente a terrível situação de andar com o alarme soando dia e noite ( ansiedade generalizada).

Como saber se a ansiedade deixou de ser “normal” e passou a ser um problema ( patológica)?

Quando estava na faculdade de psicologia, o professor de Psicopatologia apresentou uma forma simples de entender se algo passou da linha de normalidade: o FIDI.

F: Frequência

I: Intensidade

D: Duração

I: Interferência

Se a resposta para qualquer uma das 3 primeiras letras for “ muito “, então certamente a última letra, a interferência, vai estar prejudicada.

É quando a frequência, intensidade  e/ou duração estão tão altas que passam a interferir no seu dia-a-dia.

Quando perceber que sua ansiedade estiver caminhando para receber “altas notas no FIDI”, você deve procurar a ajuda de um psicólogo de sua confiança.

 

Aceitação…ou, como o processo de luto pode ser visto diferente.

Texto publicado originalmente no blog : http://www.capediem-lica.blogspot.com.br/

 

Olá, sou o Rodrigo, psicólogo, e a pedidos estou escrevendo esse texto sobre a questão da aceitação.

Uma das muitas questões abordadas neste blog é a Esclerose Múltipla (E.M) , e como patologia crônica e ( até o presente momento) incurável deve-se sempre tomar muito cuidado com uma das principais demandas quando se pensa nessa questão: o luto e os problemas de se desenrolar de forma saudável esse momento.

Talvez uma das minhas frases favoritas é de um psicólogo americano chamado A. Beck ( patrono da Terapia Cognitiva):

” Não é uma situação por si só que determina o que as pessoas sentem, mas, antes, o modo como elas interpretam uma situação”

( Aaron T. Beck, 1964)

Vamos entender melhor o que Beck quis dizer com isso:

  •  A Esclerose Múltipla ( e qualquer outra patologia) não vai desaparecer só porque você se recusa a falar sobre isso.
  • A Esclerose Múltipla ( e qualquer outra patologia) não vai desaparecer só porque você conta para tudo e todos que é portador.

A situação ( E.M) por si só não determina o nível de sofrimento que você terá que enfrentar. Qual o nível de sofrimento que você terá depende muito mais como você conduz a situação ( e de como você pensa , seus sistemas de crenças e valores ), do que ela por si só.

Está bem Rodrigo, mas lá no começo você falou de luto. Luto não é só quando morre alguém?

Sim e não. De fato o luto é quando morre algo, mas não precisa ser necessariamente alguém.

Quando deixamos de ser criança e nos tornamos adolescentes enfrentamos o luto da morte do status de criança.

Ao perdermos o emprego, enfrentamos o luto da morte daquele emprego.

Quando alguém recebe o diagnóstico de E.M ele terá que enfrentar um terrível luto. A morte daquele que ele chamava de “eu” para um novo “eu”. Um com E.M. e todas as limitações que isto implica. E pode ser muito complicado.

Um dos meus modelos preferidos é o proposto por Kübler-Ross dividido em 5 estágios :

  1.  Negação ( “Eu não tenho E.M., isso foi erro do médico, vou procurar uma 2º,3º,4º opinião” )
  2. Raiva ( “Que merda! Justo comigo? O que fiz de errado! O fulano tal tem uma vida toda errada e isso acontece comigo??”)
  3. Barganha ou Negociação ( “Se eu fizer isso…aquilo vai acontecer”, normalmente de cunho religioso o paciente negocia com Deus a sua melhora, as conhecidas promessas)
  4. Depressão ( “ Já que estou com E.M vou desistir e jogar a toalha “)
  5.  Aceitação ( “Bem tenho E.M. e tudo bem, vou conseguir conviver bem com isso” )

Nem todos vão passar pelos 5 estágios ( normalmente 2 ou 3 estágios apenas) e não estão em ordem, porém deve-se lembrar que o objetivo sempre é chegar em estágio de aceitação.

E como chegar a aceitação?

Bem, somos todos únicos e não existe uma formula mágica para isso acontecer, porém não posso deixar de escrever o que eu acho que deveria ser claro para todos: Procure um psicólogo, ele está apto a te ajudar. Ter E.M. é muito complicado e você precisa de toda ajuda profissional.

Ele vai conseguir perceber seus padrões de pensamentos e comportamentos disfuncionais e te ajudará a pensar em alternativas para eles.

Tenho que colocar uma observação que Aceitar a condição de ter E.M. é diferente de desistir e deixar levar. Essa atitude está muito mais ligada ao estágio de Depressão do que aceitação.

Aceitar é entender as limitações e trabalhar para que elas não o atrapalhem em ter uma vida feliz.