Envelhecer não é necessariamente ruim…

Atualmente estou cursando o mestrado de psicogerontologia, palavra grande que significa nada mais que a psicologia voltada à ciência do envelhecimento humano, e que percebo causar espanto em muitos ao demonstrar meu interesse no tema.

Lembro-me de que em uma das primeiras aulas, foi levantado um questionamento bem simples: “Envelhecer é algo ruim ou bom?”.

Embora tenha tentado se mostrar uma faceta positiva do envelhecer, no final o que imperou foi algo muito negativo… Solidão, doença, depressão, abandono, tudo que se tinha de pior no envelhecer.

Infelizmente em nossos tempos atuais, cultuamos o jovem, belo e produtivo. Envelhecer parece ser o distanciamento total de tudo que se é valorizado ultimamente.

Porém não precisa ser assim! Somos nada mais que a soma de todas as experiências, interações, sentimentos positivos e negativos, pensamentos e crenças.

Como uma árvore que com o passar do tempo vai acumulando camadas e se tornando cada vez mais forte e imponente, envelhecer deveria ser o processo de acumular tudo o que a vida nos proporcionou e ainda nos proporciona.

Nunca é tarde demais para ter novas experiências e se permitir mudanças, compartilhar tudo aquilo que se presenciou e ensinar aos outros todo o encanto que se viveu. E por que não, também aprender?

As dificuldades físicas e cognitivas, muitas vezes típicas do passar dos anos são apenas marcas de tudo que passou, pois de nada vale querer ter uma velhice repleta de saúde se relegou isso a segundo ou terceiro plano toda a sua vida.

Somos produto de nossas escolhas, de nosso meio e de nosso tempo, negar isso e querer resultados diferentes só por estar envelhecendo é no mínimo ingenuidade.

Também não podemos esquecer-nos de nos cuidar no aqui e agora, afinal sentar a frente da televisão e esperar o tempo de partir, também não parece ser a melhor forma de aproveitar os dias.

Envelhecer não deveria ser sinônimo de abandono, muitas vezes causado pelo próprio individuo, que aos poucos deixa para traz tudo aquilo que o fez tão bem ao longo da vida, apenas para sucumbir ao preconceito de que “envelhecer é só esperar a morte chegar”.

A suavidade de perceber que de passagem em passagem, envelhecer é apenas mais uma das tantas coisas que temos que enfrentar para poder participar dessa grande festa chamada vida.

Direito a procurar ajuda

“Só quem sofre, sabe o quanto sofre”

Na faculdade de psicologia obrigatoriamente no último ano temos que fazer estágio, entre diversas áreas, na clínica de psicologia.

Basicamente é atendimento clinico supervisionado pelo professor responsável pela matéria, e uma ou duas vezes na semana todos os estudantes se reúnem para discutir sobre o caso e suas possibilidades.

Muito comum também a troca de informações sobre medos, dificuldades e ansiedades típicos de quem está iniciando.

Em uma dessas discussões de caso foi levantado a complexidade de alguns casos e comparado a “simplicidade” de outros. Nesse momento o professor responsável, Fábio Guedes, interveio e falou a frase que inicia esse post. A mensagem era clara, não existe casos mais simples ou mais complexos, são todos sofrimentos humanos que merecem toda a nossa atenção e dedicação, pois aquele que procura ajuda psicológica sofre com aquilo e não cabe a nós julgar o que é mais ou menos sofrimento.

Já me deparei algumas vezes no consultório com pessoas resistentes a terapia, usando o argumento de que “tem gente muito pior e não reclama” …ou “gente passando fome e eu reclamando dessa bobeira” …entre diversas variações desse mesmo pensamento automático.

Sofrimento não é mensurável, muito menos comparável, não é assim que ele funciona. Ele dói, machuca e é na maioria dos casos bem chato.

Todos temos o direito de procurar ajuda psicológica, ou qualquer ajuda que seja, quando algo nos incomoda ou não está bem. Situação alguma do mundo (fome, miséria, violência) deve ser justificativa para sentir-se culpado por seu sofrimento e ninguém pode lhe dizer quando procurar ou não ajuda.

Muitas vezes temos crenças irracionais sobre como os nossos sentimentos funcionam, gerando assim culpas baseadas em ideias de que deveríamos a todo momento controlar tudo que ocorre a nossa volta e internamente. Ao nos deparamos com a dificuldade em controlar tudo, a culpa nos joga a justificativa de que a ajuda não deve ser procurado pois sempre terá alguém em situação pior que a nossa e “conseguiu”.

Tudo bem, de fato existem situações extremas nesse nosso mundo contemporâneo, mas procurar ajuda para seus problemas não fará que os problemas maiores do mundo não recebam a devida atenção e se percam. Muitas vezes é o contrário, estando bem, a possibilidade de ajudar outras pessoas aumenta, disseminando assim a cultura de bem estar.

A saúde emocional também é um direito seu.