O poder do “Désolé”

Minha irmã mais velha mora na França há 4 anos, foi para lá trabalhar por 1 ano e nunca mais voltou. Tudo bem, ela sempre foi uma pessoa que gostou de conhecer lugares novos, tendo feito intercâmbios e viagens ao velho continente, e de certa forma todos sabíamos que uma hora ela ia se estabelecer por lá.

Depois de 3 anos, juntei dinheiro e coragem (precisei de muito mais coragem do que dinheiro) e fui visita-la em sua cidade.  Conheci Paris e Lyon na França, e Bruxelas na Bélgica. Com inglês sofrido e não sabendo nenhuma palavra em francês, minha irmã foi minha interprete em todas as ocasiões. Interprete, guia turístico e apoio emocional em momentos que ela simplesmente dizia para me virar.

Pedi para ela me ensinar o básico para não parecer mal-educado, assim aprendi o “Bonjour (bom dia), Merci (obrigado), pardon (perdão, desculpe) ” e o ótimo “ Je suis Brésilien (Eu sou brasileiro) ” para caso alguém me perguntasse algo, e minha irmã não percebesse a tempo de traduzir (e uma frase de pânico, para ser surpreendentemente bem tratado em terras francesas).

Escreveria um texto gigantesco, ou até um livro, em tantas coisas incríveis que aprendi com aquela viagem, e com minha irmã, exposto a culturas completamente diferentes a que estou acostumado, porém uma simples palavra me chamou a atenção como psicólogo.

“Désolé”

Em tradução livre, désolé, significaria algo como “desolado”, uma expressão que deve ser empregado em situações que alguém te solicita algo, e você não pode corresponder. Seria algo como o nosso, ” me desculpe”.

Se formos usar só a tradução literal, é difícil diferenciarmos o désolé, do pardon (perdão, desculpe).

Em um momento da viagem, não lembro o contexto, minha irmã fala com alguém e termina a frase com “désolé”. Ela ri baixo, olha para mim e diz que ainda as vezes precisava se lembrar de usar corretamente a palavra, ao invés do pardon.

Ao tentar me explicar a diferença, abre uma nova forma de ver o mundo para o até então viajante novato.

“Désolé é a desculpa que não permite complemento”

Ao ser solicitado algum tipo de favor, pedido no geral, quando não se pode corresponder simplesmente se diz “ Não posso, me desculpe (désolé) ”. Não tem complemento, eles não emendam frases longas, explicando o motivo que levou a negar o pedido do outro…simplesmente, por algum motivo, não podem corresponder a solicitação. Désolé.

Rápido, curto, simples, prático…sem culpa. Não posso, me desculpe.

Em nossas terras tupiniquins, é quase um sacrilégio negar um pedido sem um bom motivo. Corremos o sério risco de sermos mal vistos, chamados de egoístas e individualistas, se negarmos um pedido simplesmente por não podermos (ou não querermos) corresponder. Quase um erro social fatal, devendo ser evitado a todo custo.

Carregado de uma culpa sem tamanho, inventamos histórias muitas vezes mirabolantes para negarmos algo, quando simplesmente não podemos naquele momento, corresponder ao outro.

Quantas vezes você já complementou sua desculpa, quando no fundo queria apenas dizer “ désolé”?

 

 

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