Pelo fim da Psicofobia

Em 2012, pouco antes de sua morte, engajado em lutar contra o preconceito gerado com quem tem algum tipo de doença mental, Chico Anysio recebe em sua casa o médico Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) para dar sua contribuição em forma de entrevista para a causa.

Chico sofreu de depressão por décadas, sendo acompanhado de perto pelos mais dedicados profissionais. Mesmo assim, muitos não sabem de sua luta.

Depois de terminar a entrevista, em um bate papo, o comunicador sugere ao médico que criem um termo para o preconceito com quem tem doenças mentais, e sendo acatado a ideia cria-se o termo Psicofobia.

O termo se popularizou com o tempo, sendo incorporado ao vocabulário da saúde rapidamente, e disseminado como uma causa concreta a ser combatida.

De acordo com a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 12% da população mundial necessita de algum tipo de intervenção para melhorar a saúde mental.

Quer dados nacionais? Tudo bem, a mesma OMS estima que 5,8% da população brasileira em 2015 tinha algum nível de depressão. Somos o maior índice de depressão da América Latina, e segundo maior das Américas, perdendo apenas para os Estados Unidos da América, com 5,9% (pouca diferença não?).

Isso claro, por que os dados nacionais correspondem apenas a depressão, excluindo da lista outros transtornos, como ansiedade e esquizofrenia.

Mesmo assim, ainda são tratados como “loucos, fracos, incompetentes”, quando abrem o diagnóstico ao mundo. Vão embora amigos, famílias se afastam, empregos se perdem e dificuldades se multiplicam.

O pensamento que a doença mental sempre será ligada à loucura e a violência impede o correto diagnóstico e tratamento de diversas patologias. O psiquiatra sempre é visto como o médico de loucos, que ninguém jamais quer precisar, e se precisar jamais deve ser visitado.

Estimado que 94% dos que tem alguma doença mental, não terão nenhum tipo de comportamento violento ligado à sua condição mental, ainda sim perpetua-se a ideia do “louco raivoso”, atacando sem motivos qualquer um.

A impossibilidade de se realizar exames fisiológicos contundentes, que provem com grande margem de certeza, a existência de doenças mentais é um dos pilares utilizados para disseminar o preconceito, taxando como “frescura e fraqueza, má vontade e desmotivação” a dificuldade de realizar atividades corriqueiras, simples para a grande maioria.

Isso pois estamos falando de doenças psiquiátricas, com médicos psiquiatras, algo amplamente aceito pela comunidade cientifica tradicional, e bem recebido pela população em geral. Quando estendemos a psicofobia a profissionais psicólogos e sofrimento emocional e comportamentos inadequados, temos a dificuldade de lidar com uma profissão e ciência jovem (psicologia) e quadros que nem se pode considerar doenças (dificuldades de falar em relacionamentos amorosos não é doença, mas causa intenso sofrimento).

Quando me formei em psicologia, um dos primeiros locais que foi conhecer para iniciar meus atendimentos era uma clínica localizada no Alto Tietê Paulista. Em uma casa ampla, sem qualquer tipo de identificação (placas, adesivos) de que se tratava de uma clínica de psicologia, cheguei a duvidar que estava no lugar certo ao chegar para a entrevista. Ao fim do processo, questionei o profissional que me entrevistou da ausência de placas, e ele foi taxativo “Assim as pessoas não tem vergonha de vir e entrar”.

Lutemos pelo fim do preconceito, contra qualquer tipo de preconceito, pois o mesmo só gera mais sofrimento.

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