O idoso volta a ser criança?

De acordo com estimativas feitos pelo IBGE, tomando como base o censo de 2010, a população idosa ( acima dos 60 anos) deve passar dos atuais 14,9 milhões (7,4% da população), em 2013 , para 58,4 milhões ( 26,7% da população) em 2060.

Em tese isso fara que a população idosa se torne maior que a de crianças, em 2060.

Claro que são projeções, expectativas baseadas em censos atuais, e isso não são cálculos precisos, porém apenas demonstra algo que no momento todos devem prestar atenção: a população idosa está se tornando uma parcela expressiva de nossa sociedade, e nós seremos os idosos desse futuro.

Podemos falar sobre diversos aspectos do envelhecimento, sendo levantadas questões médicas e biológicas, sociais e econômicas, porém dentro disso gostaria de levantar um único ponto que sempre me fez pensar ( e me incomodava). Escutei por diversas vezes a expressão que o Idoso volta a ser criança.

Isso era dito por pessoas que queriam bem seus idosos, muitas vezes sem nenhuma maldade ou algo do tipo incutido. Mas, vamos parar para pensar um pouco sobre isso?

Quando dizem que idosos voltam a ser crianças, a maioria esmagadora das vezes,  se dá em conotação que o individuo “deixa de seguir as regras, fala o que pensa, faz o que quer”.

Será mesmo isso que acontece?

Pensando em uma simples análise da questão,  a prior podemos perceber a enorme diferença entre os comportamentos infantis quanto a isso, e a do idoso. A criança se comporta dessa maneira ( faz e fala o que quer) pois ainda não tem no seu repertório as regras sociais vigentes, em resumo, se comportam assim pois não sabem que isso não é socialmente aceito.

Com idosos isso é bem diferente, sendo muitas vezes explicado seu comportamento por uma condição médica ( demências por exemplo),  outras vezes por entender muito bem das regras sociais vigentes, porém devido a sua experiência de vida escolhe simplesmente não seguir, pois “ ninguém liga”

Essa ideia geral de que ninguém liga para o comportamento do idoso é exemplificada pelo ditado de que idoso volta a ser criança, pois se formos analisar ninguém leva verdadeiramente a sério uma criança.

Se a criança fala algo inapropriado se releva, pois é “criança, não sabe o que faz”, o mesmo que o idoso, pois “ esta velho mesmo”.

Retratar o idoso como uma criança que viveu muito, não é algo bondoso e sim dizer que no fundo, tem se a ideia de que aquele individuo não deve mais ser levado a sério.

O idoso não voltou a ser criança, nenhum de nós em nenhum momento volta a ser de fato uma criança, e deve ser tratado como individuo capaz de entender e interagir com o seu meio, claro que com limitações e muitas vezes com mudanças drásticas de representação de papeis sociais.

Não podemos esquecer jamais que amanhã, se tudo correr bem, os idosos seremos nós.

Fonte utilizada

 

Aceitação…ou, como o processo de luto pode ser visto diferente.

Texto publicado originalmente no blog : http://www.capediem-lica.blogspot.com.br/

 

Olá, sou o Rodrigo, psicólogo, e a pedidos estou escrevendo esse texto sobre a questão da aceitação.

Uma das muitas questões abordadas neste blog é a Esclerose Múltipla (E.M) , e como patologia crônica e ( até o presente momento) incurável deve-se sempre tomar muito cuidado com uma das principais demandas quando se pensa nessa questão: o luto e os problemas de se desenrolar de forma saudável esse momento.

Talvez uma das minhas frases favoritas é de um psicólogo americano chamado A. Beck ( patrono da Terapia Cognitiva):

” Não é uma situação por si só que determina o que as pessoas sentem, mas, antes, o modo como elas interpretam uma situação”

( Aaron T. Beck, 1964)

Vamos entender melhor o que Beck quis dizer com isso:

  •  A Esclerose Múltipla ( e qualquer outra patologia) não vai desaparecer só porque você se recusa a falar sobre isso.
  • A Esclerose Múltipla ( e qualquer outra patologia) não vai desaparecer só porque você conta para tudo e todos que é portador.

A situação ( E.M) por si só não determina o nível de sofrimento que você terá que enfrentar. Qual o nível de sofrimento que você terá depende muito mais como você conduz a situação ( e de como você pensa , seus sistemas de crenças e valores ), do que ela por si só.

Está bem Rodrigo, mas lá no começo você falou de luto. Luto não é só quando morre alguém?

Sim e não. De fato o luto é quando morre algo, mas não precisa ser necessariamente alguém.

Quando deixamos de ser criança e nos tornamos adolescentes enfrentamos o luto da morte do status de criança.

Ao perdermos o emprego, enfrentamos o luto da morte daquele emprego.

Quando alguém recebe o diagnóstico de E.M ele terá que enfrentar um terrível luto. A morte daquele que ele chamava de “eu” para um novo “eu”. Um com E.M. e todas as limitações que isto implica. E pode ser muito complicado.

Um dos meus modelos preferidos é o proposto por Kübler-Ross dividido em 5 estágios :

  1.  Negação ( “Eu não tenho E.M., isso foi erro do médico, vou procurar uma 2º,3º,4º opinião” )
  2. Raiva ( “Que merda! Justo comigo? O que fiz de errado! O fulano tal tem uma vida toda errada e isso acontece comigo??”)
  3. Barganha ou Negociação ( “Se eu fizer isso…aquilo vai acontecer”, normalmente de cunho religioso o paciente negocia com Deus a sua melhora, as conhecidas promessas)
  4. Depressão ( “ Já que estou com E.M vou desistir e jogar a toalha “)
  5.  Aceitação ( “Bem tenho E.M. e tudo bem, vou conseguir conviver bem com isso” )

Nem todos vão passar pelos 5 estágios ( normalmente 2 ou 3 estágios apenas) e não estão em ordem, porém deve-se lembrar que o objetivo sempre é chegar em estágio de aceitação.

E como chegar a aceitação?

Bem, somos todos únicos e não existe uma formula mágica para isso acontecer, porém não posso deixar de escrever o que eu acho que deveria ser claro para todos: Procure um psicólogo, ele está apto a te ajudar. Ter E.M. é muito complicado e você precisa de toda ajuda profissional.

Ele vai conseguir perceber seus padrões de pensamentos e comportamentos disfuncionais e te ajudará a pensar em alternativas para eles.

Tenho que colocar uma observação que Aceitar a condição de ter E.M. é diferente de desistir e deixar levar. Essa atitude está muito mais ligada ao estágio de Depressão do que aceitação.

Aceitar é entender as limitações e trabalhar para que elas não o atrapalhem em ter uma vida feliz.