Quem precisa ser magro?

Nos tempos modernos a questão do peso tomou proporções que vão muito além do saudável , ou seja  o magro deixou de ser uma questão de saúde para virar uma questão de estética.

Ser magro virou sinônimo de algo bom e positivo, mas não no sentido de saúde e sim no sentido de sucesso pessoal e de confiança.

Ser magro é ser belo…ser belo é ser um sucesso…preciso ser magro, mas não sou…sou um fracasso…devo emagrecer a qualquer custo.

Com o encadeamento de pensamentos acima que muitos se vem diante dos transtornos alimentares mais discutidos ultimamente: anorexia e bulimia.

Vamos falar sobre cada um deles separados, pois cada um tem suas características.

A anorexia pode ser definida de uma forma geral como um medo intenso e/ou mórbido de engordar, e para que isso não ocorra, recorre a métodos extremos de restrição alimentar ( passar o dia com o mínimo de comida imaginável), mantendo metas de peso surreais, baseados em uma magreza que mais se assemelha a um esqueleto.

Muitas vezes se almeja chegar o mais próximo de zero de gordura corporal possível ( claro que ignorando o fato que o corpo precisa de gordura para se manter funcionando).

Outra característica marcante é o fato de quem tem anorexia se ve dentro de uma distorção corporal, ou seja ele não vê o corpo como ele é, e sim como ele imagina que é. Não importa o quão magra esteja, sempre irá se ver gorda e precisando ainda mais perder peso.

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Já na bulimia, embora possa parecer muito com a anorexia, ela na verdade se diferencia principalmente que além do medo de ganhar peso, seja associado uma série de atitudes para forçar a “limpeza” do organismo mais rápido, como indução de vômitos depois de alimentar-se, uso intenso de laxantes e etc.

Porém o mais marcante da bulimia é que devido a associação forte a questões ansiosas e depressivas, fatalmente o individuo se sentirá culpado e partirá para a compulsão alimentar, onde ele ingere uma grande quantidade de comida em pouco tempo, para na sequência retornar ao antigo padrão de indução de vômitos e laxantes.

Pacientes com anorexia e bulimia tendem a procurar agrupamento de pessoas que contenham os mesmos transtornos, sendo a internet o grande ponto de encontro.

Termos foram criados para se identificarem e ao mesmo tempo se preservarem de olhares alheios, como o Pró-Ana e o Pró-Mia, abreviações de Pró Anorexia e Pró Bulimia, associações de incentivo ao transtorno e de divulgação de informações para a perda ainda mais intensa de peso.

Durante os anos 90 uma banda chamada Silverchair fez muito sucesso com uma música chama Ana’s Song, onde aparentava ser uma declaração de amor para uma garota de nome Ana, porém na verdade o vocalista, que tinha anorexia fez a música para falar sobre seu transtorno.

Ana’s Song ( Silverchair)

Por favor, Ana, morra
Pois enquanto você estiver aqui, nós não estaremos
Você faz o som do riso
E as unhas afiadas parecerem macias

E eu preciso de você agora, de algum modo
E eu preciso de você agora, de algum modo

Abra fogo com a carência que me faz
Estar de joelhos por você
Abra fogo sobre as ânsias dos meus joelhos
Como eu preciso de você

 

Para finalizar gostaria de deixar a imagem de uma comparação feita pelo artista americano Nickolay Lamn de uma Barbie vendida no mercado atual e uma feita com medidas de mulheres reais.

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A raiva e sua perspectiva

Imagine que em um belo dia de sol você resolve ir ao mercado comprar algumas coisas que esta a faltar em sua casa. Vai até o mercado a pé, pois mora perto do mesmo, e volta com algumas sacolas de frutas, ovos e refrigerantes.

Você está a caminhar e percebe que recebeu uma mensagem no celular e o pega para ver o que é. Nesse instante, você é violentamente trombado por alguém e suas sacolas caem no chão, ovos quebram e refrigerantes espirram para todo o lado. Automaticamente você vira para quem te acertou e pronto para gritar a plenos pulmões percebe que caído no chão está uma pessoa com óculos escuros e bengala. Ela é cega e está tentando achar sua bengala para se levantar.

A raiva pode estar lá ainda, mas algo te freia e você não grita, muito pelo contrário, se solidariza para ajudar a pessoa a se levantar e sair da sujeira que suas compras fizeram. Antes que perceba o sentimento passou e está mais preocupado com quem te acertou e como fará para repor as suas mercadorias.

Quando se fala em raiva, um dos pontos chaves para entendê-la é a palavra “injustiça”.

Ao se sentirem injustiçadas, passadas para trás, colocadas em situações de inferioridade muitas pessoas acabam gerando um sentimento de raiva.

Vamos voltar a utilizar o cenário acima descrito: Ao ser violentamente acertado, nosso personagem imediatamente pensa: “Mas que droga, como a pessoa não me viu? Ela deve ter feito de propósito, só pode! Olha só quebrou tudo, vai ter que pagar!”.

Todos os pensamentos giram em volta de uma única crença: Estou sendo injustiçado e preciso me defender imediatamente.

Ao virar-se e perceber que a pessoa que o acertou é cega, imediatamente os pensamentos mudam: Caramba, ele é cego, por isso não me viu. Nossa está no meio da sujeira que minhas compras fizeram, é claro que não é de propósito.

A crença passa a ser: Não foi de propósito e ele não quis me prejudicar.

Cada um de nós reage a determinadas situações de uma forma diferente devido ao nosso sistema de crenças, que nada mais é que um apanhado geral de regras que usamos para gerir nossa vida, e nossos pensamentos e emoções uma consequência direta desse sistema.

Já as nossas reações perante o sentimento de raiva, ou seja, nossos comportamentos, são ainda mais individuais e de uma variedade enorme que não cabe agora discutir.

Passando a entender as nossas crenças, mudando as que estão atrapalhando uma vida saudável, os demais pontos ( emoções, pensamentos e comportamentos) acompanham a mudança.

 

Quando minha ansiedade vira um problema

Quando se fala de ansiedade, a primeira coisa que temos que entender é que a ansiedade é algo natural, presente em todos os seres humanos e que tem uma função em nossa vida que não é necessariamente algo ruim.

A ansiedade serve para nos deixar em estado de alerta, aumentando assim nossa capacidade de responder rapidamente a situações de estresse.

Ela funciona realmente como parte do nosso sistema de defesa, como um grande alarme que soa e nos deixa atentos toda vez que percebemos que algo não está certo ou que merece nossa completa atenção.

“Ta, tudo bem Rodrigo, mas eu detesto ficar ansioso” você deve pensar. Mas tente olhar da seguinte forma: você detesta estar ansioso, vai fazer de tudo para terminar logo aquela situação e assim deixar de sentir-se ansioso…bingo, o seu sistema de alarme fez seu papel.

A grande questão é quando seu sistema de alarme ( ansiedade) fica “desregulado”, soando assim em situações que não são necessárias tanto alarde, como por exemplo frente a situações sociais que seu alarme soa insistentemente e te trava no que deveria fazer (fobia social), na frente de determinado animal que seu alarme fica enlouquecido e não te deixa pensar em mais nada ( fobias especificas), em situações corriqueiras e que de repente ele soa tão alto que parece que vai te fazer um terrível mal ( ataque de pânico), ou frente a terrível situação de andar com o alarme soando dia e noite ( ansiedade generalizada).

Como saber se a ansiedade deixou de ser “normal” e passou a ser um problema ( patológica)?

Quando estava na faculdade de psicologia, o professor de Psicopatologia apresentou uma forma simples de entender se algo passou da linha de normalidade: o FIDI.

F: Frequência

I: Intensidade

D: Duração

I: Interferência

Se a resposta para qualquer uma das 3 primeiras letras for “ muito “, então certamente a última letra, a interferência, vai estar prejudicada.

É quando a frequência, intensidade  e/ou duração estão tão altas que passam a interferir no seu dia-a-dia.

Quando perceber que sua ansiedade estiver caminhando para receber “altas notas no FIDI”, você deve procurar a ajuda de um psicólogo de sua confiança.

 

Aceitação…ou, como o processo de luto pode ser visto diferente.

Texto publicado originalmente no blog : http://www.capediem-lica.blogspot.com.br/

 

Olá, sou o Rodrigo, psicólogo, e a pedidos estou escrevendo esse texto sobre a questão da aceitação.

Uma das muitas questões abordadas neste blog é a Esclerose Múltipla (E.M) , e como patologia crônica e ( até o presente momento) incurável deve-se sempre tomar muito cuidado com uma das principais demandas quando se pensa nessa questão: o luto e os problemas de se desenrolar de forma saudável esse momento.

Talvez uma das minhas frases favoritas é de um psicólogo americano chamado A. Beck ( patrono da Terapia Cognitiva):

” Não é uma situação por si só que determina o que as pessoas sentem, mas, antes, o modo como elas interpretam uma situação”

( Aaron T. Beck, 1964)

Vamos entender melhor o que Beck quis dizer com isso:

  •  A Esclerose Múltipla ( e qualquer outra patologia) não vai desaparecer só porque você se recusa a falar sobre isso.
  • A Esclerose Múltipla ( e qualquer outra patologia) não vai desaparecer só porque você conta para tudo e todos que é portador.

A situação ( E.M) por si só não determina o nível de sofrimento que você terá que enfrentar. Qual o nível de sofrimento que você terá depende muito mais como você conduz a situação ( e de como você pensa , seus sistemas de crenças e valores ), do que ela por si só.

Está bem Rodrigo, mas lá no começo você falou de luto. Luto não é só quando morre alguém?

Sim e não. De fato o luto é quando morre algo, mas não precisa ser necessariamente alguém.

Quando deixamos de ser criança e nos tornamos adolescentes enfrentamos o luto da morte do status de criança.

Ao perdermos o emprego, enfrentamos o luto da morte daquele emprego.

Quando alguém recebe o diagnóstico de E.M ele terá que enfrentar um terrível luto. A morte daquele que ele chamava de “eu” para um novo “eu”. Um com E.M. e todas as limitações que isto implica. E pode ser muito complicado.

Um dos meus modelos preferidos é o proposto por Kübler-Ross dividido em 5 estágios :

  1.  Negação ( “Eu não tenho E.M., isso foi erro do médico, vou procurar uma 2º,3º,4º opinião” )
  2. Raiva ( “Que merda! Justo comigo? O que fiz de errado! O fulano tal tem uma vida toda errada e isso acontece comigo??”)
  3. Barganha ou Negociação ( “Se eu fizer isso…aquilo vai acontecer”, normalmente de cunho religioso o paciente negocia com Deus a sua melhora, as conhecidas promessas)
  4. Depressão ( “ Já que estou com E.M vou desistir e jogar a toalha “)
  5.  Aceitação ( “Bem tenho E.M. e tudo bem, vou conseguir conviver bem com isso” )

Nem todos vão passar pelos 5 estágios ( normalmente 2 ou 3 estágios apenas) e não estão em ordem, porém deve-se lembrar que o objetivo sempre é chegar em estágio de aceitação.

E como chegar a aceitação?

Bem, somos todos únicos e não existe uma formula mágica para isso acontecer, porém não posso deixar de escrever o que eu acho que deveria ser claro para todos: Procure um psicólogo, ele está apto a te ajudar. Ter E.M. é muito complicado e você precisa de toda ajuda profissional.

Ele vai conseguir perceber seus padrões de pensamentos e comportamentos disfuncionais e te ajudará a pensar em alternativas para eles.

Tenho que colocar uma observação que Aceitar a condição de ter E.M. é diferente de desistir e deixar levar. Essa atitude está muito mais ligada ao estágio de Depressão do que aceitação.

Aceitar é entender as limitações e trabalhar para que elas não o atrapalhem em ter uma vida feliz.